No mundo do "vende-se" tudo é perfeito. Ou quer parecer. Quanto mais o consumo coloniza nossas vidas, mais a ilusão nos puxa como uma areia movediça. Ofertas incríveis, produtos imperdíveis,... tudo tão imperdível que eu nem sei mais do que eu realmente preciso para viver. Não tem mais jeito, vamos cair na real: as coisas superaram as pessoas. São maravilhas fáceis da touchscreen, da wireless, do smart, iphone-pad-pod-pimba. Antes tudo isso do que girar uma manivela pesada para decifrar alguém.
É difícil decifrar, concordo. Pessoas não estão a venda, em ofertas, em sites de busca, em luminosos anúncios do calçadão. E se estivessem, não seriam lá muito atraentes - ainda assim perderiam a corrida para as coisas, perfeitas por natureza. Mas vá lá... com um toque de publicidade algumas exceções surgiriam. Muita gente, afinal, não revela toda a verdade de seu mecanismo. Seria fácil iludir.
Penso como seria o meu anúncio. Nunca soube me vender muito bem, nem quando precisei. Seria então um fracasso, certo? Certo. Mas, falida, eu saberia que não fui mais um produto colonizador; seria amor.
Leriam assim:
"Não sei assobiar. Não tenho habilidades esportivas. A não ser o boxe, que é como meditar em pancadas. Aliás, adoro meditar. Incenso, livros, velas e solidão. Gosto também da não-solidão; cada um tem sua hora, saiba qual é. Odeio coca-cola, amo chocolate. Adoro fazer comida, mas bagunço bastante até que fique pronta. E demora, venha sem fome e com uma garrafa de vinho. Aliás, não traga vinho. Tenho uma garrafa daquele feito pelo meu vô potuguês, o melhor vinho do mundo. Sou a primeira de quatro irmãs e minha mãe é minha deusa. Família é preciosa, não toque na minha se não for para amar. Se o fizer e não for para isso, posso me transformar em algo que não te agrada. Como um mutante. No meu estado normal, sou amiga, simpática e paciente. Paciente de paciência, não de consultório médico. Odeio ir a médicos, e talvez por isso eu acumule problemas que julgo acumuláveis. Um deles é a rinite. Tenho vício de Sorinan. E de chimarrão. De vício, não lembro mais nenhum. Sei ouvir teus anseios, odeio falar dos meus. Muita coisa minha sempre vai ser mistério para você, acostume-se. Se quiser discutir, fale de política ou de jornalismo; não discuta relacionamento, arrume-o ou deixe-o. Amo o jornalismo, o cinema e as histórias. Prefiro a verdade sempre. Fico indignada. Não sei organizar finanças. Tenho saudade da infância. Sou adaptável. Sei dar carinho. Amo idosos. Odeio hipocrisia. Marque comigo sempre meia hora antes, sou impontual em compromissos. Mas se for de trabalho, nunca. A propósito, impontualidade não é descompromisso - é quase um distúrbio. Odeio descompromisso, falar e não fazer. Meu dia preferido é o cinza, friozinho leve. Amo música. Sou fã de Elvis Presley. E meu signo é peixes, à moda antiga. Não venho com internet móvel. Ah, mas também sou moderna: meu coração tem touchscreen. É fácil tocar."
Ensaio no escuro
domingo, 26 de agosto de 2012
segunda-feira, 12 de março de 2012
Sobre sonhos
Eu quero o que tem gosto do que nunca provei, o que tem a cor que o arco-íris não revela. Aliás, nem lá, além do arco-íris, quero mais ir. Muita gente já foi atrás do tal baú. Não faço questão de um tesouro que brilhe aos olhos de todos. Prefiro outro destino - que seja de carvão, contanto que para mim ele queira ser único; só aos meus olhos encantar.
Não quero viver nos horários marcados, nas agendas abarrotadas de cotidiano, nas relações impessoais, nos lugares comuns. Tudo isso só serve pra paralisar, fazer acreditar que se está vivendo. Mas viver mesmo, de verdade, só quando o coração pode respirar fundo, tranquilo e dizer em voz alta: eu realizei!
Não quero viver nos horários marcados, nas agendas abarrotadas de cotidiano, nas relações impessoais, nos lugares comuns. Tudo isso só serve pra paralisar, fazer acreditar que se está vivendo. Mas viver mesmo, de verdade, só quando o coração pode respirar fundo, tranquilo e dizer em voz alta: eu realizei!
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Ausência assimilada

Drummond sempre me encantou pela maneira de falar de amor. Aliás, palavras de amor sempre me soam muito bem. E lá vai Neruda, Shakespeare e Pessoa pra confirmar isso. Mas quero abrir minha admiração para uma outra temática destilada por Drummond. A ausência. O vazio que não se vê e só se sente aos poucos, em pequenas porções diárias. E é tanto que um dia a gente aprende a conviver com ele, como se fosse um companheiro, um camarada. Quando isso acontece, pode ser que a solidão que nos visita tenha um gosto de morango.
AUSÊNCIA
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
(Carlos Drummond de Andrade)
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Repórter
Dizem que hoje é dia do repórter. Legal. Até merecido, sem falsa modéstia. Um dia de homenagem a uma dura profissão.
Convenhamos: só o repórter conhece a dureza de interpretar um olhar, captar o que não é dito, lidar com pessoas e problemas a todo instante, fazer de um fato uma notícia. É duro preservar a isenção diante do horror ou da vitória, escolher as palavras certas. E, ainda, fazer com que as pessoas se interessem e PENSEM sobre o assunto.
Ufa...
E quer saber mais? Tudo isso é extremamente apaixonante.
Melhor do que eu, ele, Gabriel, pra falar sobre o assunto. Eis uma das frases mais incríveis de um dos mais incríveis escritores:
"Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte".
Gabriel García Marquez
Convenhamos: só o repórter conhece a dureza de interpretar um olhar, captar o que não é dito, lidar com pessoas e problemas a todo instante, fazer de um fato uma notícia. É duro preservar a isenção diante do horror ou da vitória, escolher as palavras certas. E, ainda, fazer com que as pessoas se interessem e PENSEM sobre o assunto.
Ufa...
E quer saber mais? Tudo isso é extremamente apaixonante.
Melhor do que eu, ele, Gabriel, pra falar sobre o assunto. Eis uma das frases mais incríveis de um dos mais incríveis escritores:
"Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte".
Gabriel García Marquez
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Busca desenfreada. Vamos?
Muito ouço sobre insatisfação. E ouço em tom de crítica. Se diz que todos são insatisfeitos, ninguém está preenchido com aquilo que tem, aquilo que é. E dizem mais: que a busca infinita é doentia.
Balela. Eu diria o contrário: viver concordando com o que já existe é chato. O legal é viver para buscar o que não há. Como o cientista que quer descobrir uma nova cura; o artista que não se esgota em uma obra de arte. Se Quintana disse que o caminho seria triste sem as estrelas, acredite. Chega de moralismo pró-comodismo, que embora rime não é uma boa ideia.
Ideia boa mesmo é ter o sonho como missão. Mesmo que o sonho não seja pessoal, mas universal. E esse, sim, é ainda mais reluzente.
Balela. Eu diria o contrário: viver concordando com o que já existe é chato. O legal é viver para buscar o que não há. Como o cientista que quer descobrir uma nova cura; o artista que não se esgota em uma obra de arte. Se Quintana disse que o caminho seria triste sem as estrelas, acredite. Chega de moralismo pró-comodismo, que embora rime não é uma boa ideia.
Ideia boa mesmo é ter o sonho como missão. Mesmo que o sonho não seja pessoal, mas universal. E esse, sim, é ainda mais reluzente.
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