domingo, 26 de agosto de 2012

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No mundo do "vende-se" tudo é perfeito. Ou quer parecer. Quanto mais o consumo coloniza nossas vidas, mais a ilusão nos puxa como uma areia movediça. Ofertas incríveis, produtos imperdíveis,... tudo tão imperdível que eu nem sei mais do que eu realmente preciso para viver. Não tem mais jeito, vamos cair na real: as coisas superaram as pessoas. São maravilhas fáceis da touchscreen, da wireless, do smart, iphone-pad-pod-pimba. Antes tudo isso do que girar uma manivela pesada para decifrar alguém.

 É difícil decifrar, concordo. Pessoas não estão a venda, em ofertas, em sites de busca, em luminosos anúncios do calçadão. E se estivessem, não seriam lá muito atraentes - ainda assim perderiam a corrida para as coisas, perfeitas por natureza. Mas vá lá... com um toque de publicidade algumas exceções surgiriam. Muita gente, afinal, não revela toda a verdade de seu mecanismo. Seria fácil iludir. Penso como seria o meu anúncio. Nunca soube me vender muito bem, nem quando precisei. Seria então um fracasso, certo? Certo. Mas, falida, eu saberia que não fui mais um produto colonizador; seria amor.

 Leriam assim: "Não sei assobiar. Não tenho habilidades esportivas. A não ser o boxe, que é como meditar em pancadas. Aliás, adoro meditar. Incenso, livros, velas e solidão. Gosto também da não-solidão; cada um tem sua hora, saiba qual é. Odeio coca-cola, amo chocolate. Adoro fazer comida, mas bagunço bastante até que fique pronta. E demora, venha sem fome e com uma garrafa de vinho. Aliás, não traga vinho. Tenho uma garrafa daquele feito pelo meu vô potuguês, o melhor vinho do mundo. Sou a primeira de quatro irmãs e minha mãe é minha deusa. Família é preciosa, não toque na minha se não for para amar. Se o fizer e não for para isso, posso me transformar em algo que não te agrada. Como um mutante. No meu estado normal, sou amiga, simpática e paciente. Paciente de paciência, não de consultório médico. Odeio ir a médicos, e talvez por isso eu acumule problemas que julgo acumuláveis. Um deles é a rinite. Tenho vício de Sorinan. E de chimarrão. De vício, não lembro mais nenhum. Sei ouvir teus anseios, odeio falar dos meus. Muita coisa minha sempre vai ser mistério para você, acostume-se. Se quiser discutir, fale de política ou de jornalismo; não discuta relacionamento, arrume-o ou deixe-o. Amo o jornalismo, o cinema e as histórias. Prefiro a verdade sempre. Fico indignada. Não sei organizar finanças. Tenho saudade da infância. Sou adaptável. Sei dar carinho. Amo idosos. Odeio hipocrisia. Marque comigo sempre meia hora antes, sou impontual em compromissos. Mas se for de trabalho, nunca. A propósito, impontualidade não é descompromisso - é quase um distúrbio. Odeio descompromisso, falar e não fazer. Meu dia preferido é o cinza, friozinho leve. Amo música. Sou fã de Elvis Presley. E meu signo é peixes, à moda antiga. Não venho com internet móvel. Ah, mas também sou moderna: meu coração tem touchscreen. É fácil tocar."